Ne me quitte pas

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29/02/2012 @ 17:58

Prece

Meu Deus, eu nasci árvore.
Os meninos passam e arrancam minhas folhas.
Os mendigos ficam e se cobrem com as mesmas folhas.
Elas caem e o vento as leva a lugares que não conheço e onde nunca vou estar.

Tanto me exponho, tanto me espalho.
Eu digo adeus a toda hora.
Ninguém vê, ninguém chora,
e até disseram que é bom que seja assim.

Mas às vezes os amigos vêm e sentam-se sob sua sombra,
lêem uns versos, riem alto, falam dos outros, os que sumiram,
e eu tenho vontade de ser outra coisa que não uma árvore,
sentar-me junto deles, ir aonde forem,
sentir-me desencontrada, dispersa, diversa.

Eu sei, eu sou as formas que me fizeram,
eu não deveria querer ser outra
e me contentar em ter raízes,
em estar fincada à terra, levando sol, e vento, e chuva.

Mas, Deus, eu não quero estar contente,
eu não quero me encontrar.
Encontrar-se é ancorar-se à morte.
Eu quero é ir-me com os ventos,
ainda que não mude de lugar.

— Kalliane Sibelli Amorim de Oliveira


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